Muito se tem pensado, comentado, escrito e discutido sobre o amor desde a mais longínqua antiguidade.
Erich Fromm, filósofo e pensador do nosso século, grande inspirador dos nossos sentimentos e pensamentos na juventude, em sua grande obra "A ARTE DE AMAR", coloca o amor como uma das coisas mais importantes da vida, discute o seu significado facilitando sobremaneira a compreensão das suas idéias através de um texto coerente e penetrante atribuindo um determinado amor para cada tipo de situação que se vivencia.
Para ele existe um amor diferente que se tem para os pais, para os irmãos, para os parentes, para amigos, etc. Na época em que os adolescentes e jovens tomamos conhecimento desse ilustre pensador e de sua filosofia, sua obra tomou conta dos círculos interessados na busca de uma identificação individual e de massa, de explicações convincentes para os sentimentos a ela correspondentes e que nos permitissem incluir em nossa vida o preenchimento de lacunas, esclarecimento de dúvidas e de questionamentos dessa faixa etária que continuam e ainda preocupam os adolescentes dos dias atuais. Realmente, na época, suas idéias nos satisfizeram demais e nos forneceram substrato para continuarmos a jornada pelos anos seguintes, permitindo-nos atingir a adultícia de modo satisfatório, pelo menos no que tange à satisfação do nosso "ego", como se comentava na época, e a denossos companheiros, futuras esposas e filhos.
A vida continuou, o mundo passou por transformações imensas, os últimos trinta anos foram marcados, como todos sabemos, por uma evolução e progressos jamais conhecidos em toda história da humanidade e nós, médicos pediatras, cultores do corpo e da alma das crianças e adolescentes, tentamos acompanhar, e conseguimos de maneira muito plena, toda revolução que ainda está em curso, não só no campo da medicina mas no geral e, principalmente, das transformações do mundo no que se refere aos sentimentos, às reações, aos comportamentos humanos, tanto do ponto de vista individual como de massa e, mais ainda, tentamos "localizar" a alma, o espírito, a mente, na busca de uma explicação para o que ocorre e de procedimentos para evitar os desvios de conduta que vemos aumentar numa escalada sem precedentes.
Estudos dos mais variados tipos, médico-pediátricos, filosóficos, religiosos, de história, geografia, antropologia, ensejados no sentido de poder entender o comportamento humano, nos levaram a novas concepções e compreensão de muitas coisas que lhe dizemrespeito e que possibilitaram, como pediatra, nossa atuação trilhar um caminho com o objetivo de encontrar a melhor maneira de se alcançar à felicidade.
Achamos que quem é feliz não apresenta desvios de comportamento.
Não temos ainda, apesar das nossas "andanças investigativas", uma definição, um conceito de felicidade que nos satisfaça e que no-la revele claramente. Cada pesquisador, cada estudioso forma sua própria idéia e conceito. Para nós, a felicidade é a satisfação íntima conseguida somente quando conseguimos auto-estima. Ela seria a conseqüência direta e inevitável da aquisição da auto-estima, a sua única saída.
A felicidade é o ponto final da procura do bem estar, da sensação de ser útil, de existir. Quando somos felizes e auto-estimados valorizamos o que existe de bom tanto do ponto de vista individual como coletivo, passamos a querer encontrar a felicidade também em cada passo que damos, em cada pessoa que encontramos, em cada objeto que vemos ou sentimos, enfim, em cada elemento constante da natureza. Valorizamos a natureza quando somos felizes.
Em nosso livro recém-lançado "A AUTO-ESTIMULAÇÃO PRECOCE DO BEBÊ" procuramos dar uma idéia clara daquilo que pensamos além de procurar ajudar as pessoas a encontrar a felicidade em todos instantes de suas vidas à partir do dia em que nascem.
É nossa opinião que a auto-estima provém de auto-realizações, isto é, realizações conseguidas a partir do próprio esforço, utilizando as próprias capacidades e, com isso, angariar méritos próprios.
O sucesso funciona como estímulo continuado para novas conquistas, num ciclo ininterrupto durante toda evolução, por toda vida e que se inicia com aquele primeiro e mais importante, a amamentação do bebê aos seios. Mas as auto-realizações só podem acontecer quando há oportunidades para isso.
A auto-estimulação visa exatamente mostrar como os pais e responsáveis pelas crianças podem levá-las à auto-estima e à felicidade utilizando o esforço e aptidões próprios: nada lhes oferecer em excesso que os impeça de ter auto-conquistas e méritos próprios e nem deixar faltar às oportunidades de consegui-los.
A auto-estima nada mais é do que o amor manifestado por si próprio. O amor participa de tudo em nossa vida durante a qual necessitamos receber e dar amor.
A autoestima é o amor que doamos a nós mesmos e é o amor que recebemos de nós mesmos. No geral, a manifestação de amor deve estar presente em tudo o que fazemos, desde um mínimo gesto ao maior empreendimento. Não nos referimos ao amor-vaidade, ao orgulho que dá ensejo ao egoísmo, mas ao amor verdadeiro, aquele que visa não prejudicar, mas construir, ajudar a si e a todos, aquele que quando manifestado nos deixa satisfeitos na intimidade e com a auto-estima lá encima. E somente a pessoa que se ama, que se autoestima, tem condições de amar terceiros. Amar significa ser feliz; significa amar-se e permitir felicidade a terceiros o que só os auto-estimados conseguem.
A expressão do amor distribui felicidade.
O amor já nasce conosco. Segundo os naturalistas, a natureza é amor. Nós somos a natureza e por isso somos amor. Os teosofistas dizem que somos todos filhos de Deus e, como Deus é amor, como nosso Pai plantou a sementinha do amor em cada um de nós, temos o amor inato dentro de nós. O amor é inerente a todos. A discussão sobre se o amor existe, se alguém tem ou não amor, há muito está para nós dispensada.
Partimos do princípio que somos amor, temos amor, o amor é um dos nossos maiores ingredientes atávicos, senão o maior, ninguém nasce sem amor.
Assim sendo, a maior missão que temos é localizá-lo e expressá-lo.
Expressar amor significa exteriorizar bons sentimentos através de atitudes que os traduzam, sentimentos de bondade, de caridade, desejando o bem para si e para todos, assim como progresso e evolução ascendente pessoal e da coletividade, sem intenções deprejudicar, magoar, ferir, obstruir, negar ou neutralizar.
Expressar o amor significa usar a sementinha inerente a cada um, cultivá-la, adubá-la como uma preciosa plantinha para que cresça, se ramifique, floresça e dê bons frutos. Transformar e adaptar cada fruto a cada situação, condição ou pessoa para a qual o amor irá ser expresso, uma expressão diferente para a mãe, para o pai, irmãos, parentes, amigos, animais, objetos. Individualizar essa expressão para cada elemento em pauta com palavras e gestos peculiares a cada um, dando tudo que for possível de si para a felicidade pessoal e geral.
Enfim, expressar o amor é um treino infinito de doação daquilo que temos por obra da natureza, de Deus que ricos nos dotou da essência que ambos têm. A nós cumpre localizar essa riqueza, desenvolvê-la, frutificá-la, manipulá-la e doá-la indiscriminadamente e quando conseguimos esse cumprimento sentimos a verdadeira felicidade nos invadir e contagiar tudo e todos.
Uma das mais importantes expressões de amor é a que se refere à união de duas pessoas para constituir família, para ter filhos. Nos animais inferiores, quanto mais baixo eles se situam na escala, menos têm em inteligência e em expressão de amor. A procriação, perpetuação da espécie em seres que necessitam de elementos dos dois sexos se dá atravésde mecanismos impulsivos garantidos por uma atração particular a cada uma. É como se seguissem uma trajetória inevitável que culmina num acasalamento após o qual cada um segue seu rumo sem qualquer manifestação de atração outra que não seja a carnal. Ao subir a escala vemos espécies que demonstram atração emocional, até constituição de famílias, como em algumas espécies de macacos.
No ser humano, espécie mais evoluída do planeta, os sentimentos, as emoções tomam conta da maior parte de seu comportamento. Na união de duas pessoas, entre outros fatores, entram em jogo, com peso muito significativo, os sentimentos nutridos mutuamente e, principalmente a expressão do amor entre elas.
Esse amor que devem expressar é a coisa mais importante numa ligação originária de uma família. Não me refiro ao amor paixão, arrebatador, que escraviza e provoca dependências. Refiro-me àquele que tem expressão paulatinamente instituída, elaborada àpartir da matriz individual, de acordo com os conhecimentos que uma relação crescente, evolutiva e que se aprofunda vai aos poucos oferecendo como molde. A expressão deve ser elaborada como uma obra de arte criada pela intuição e aptidão do artista que exterioriza seus sentimentos construindo-a à partir de uma matriz que é o seu dom inato.
Um amor especialmente manifestado para o par, manifestação retribuída em igual proporção e ambas com aceitação correspondente, é o que irá garantir a solidez de uma família bem constituída. Essa expressão ideal de amor nada mais é do que a continuação das expressões do mesmo amor até então, uma felicidade que sucede àquela que vinha acontecendo durante a evolução pregressa e encontrou nessa fase a hora de ser exteriorizada.
A autoestimulação, quanto mais precoce e sempre mantida, é uma das grandes responsáveis pelo amor e pela felicidade.
E quando vem a determinação de ter filhos, a expressão desse amor conjugal será, por sua vez, o molde para que estes frutos da união possam expressar, a seu turno, o amor que trazem inato, inicialmente em relação aos pais e ao modelo familiar para posteriormente, com seu crescimento, desenvolvimento e evolução, a todos os modelos com os quais vierem a entrar em contato em suas vida.
Henrique Klajner
Pediatria e Puericultura
Pediatra pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP
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